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Fortaleza, 25 de abril de 2017.

Saudações meu caro,

Há muito tempo não venho conversar com você, mas é que hoje uma saudade imensa me atacou a alma e então decidi lhe procurar e saber se ainda existe essa conexão de amizade tão cara a nós dois, espero sinceramente que sim.

Tenho vagado a toa pela vida desde que nos afastamos naquele fatídico 15 de maio, desde que tudo desmoronou e minha alma caiu num buraco escuro e frio onde tudo era tristeza e solidão. Aconcheguei-me ali por tanto tempo, talvez dominado pelo hábito, que sair de lá não era mais uma possibilidade. Aos poucos fui perdendo tudo, desde amigos, bens materiais e até meu casamento acabou. Eu estava tão absorvido por aquele sentimento que não sentia falta de nada, a tristeza era uma companheira amarga, porém constante, ela é uma boa ouvinte e seus conselhos estimulam o que há de mais sombrio em nós. Sem compreender bem eu estava me perdendo em um labirinto escuro, fui guiado por um rugido, esse fazia tremer as paredes e a minha alma, era um som ao mesmo tempo assustador e magnífico e tomado de curiosidade o seguia, embrenhando-me cada vez mais fundo na escuridão da tristeza. Eu não possuía um fio para me guiar de volta a saída assim me perdi, inevitável e desolador, acompanhei minhas roupas virarem farrapos, meus cabelos crescerem, a minha barba tornar-se longa e desgrenhada, meus olhos perderem o viço e minha pele amarelar-se. A cada passo o urro da besta me chamava e eu seguia, como um autômato, como um sonâmbulo, não era mais senhor de mim e isso me fez percorrer os nove círculos durante quase dois anos. Senti na carne e na alma todas as tormentas do inferno, mas no meu caso sozinho, um turista acidental em tempos de guerra. Fui atacado brutalmente por mim mesmo até chegar o centro daquilo tudo, onde minha alma dilacerada se encontrou com a besta das bestas, tal como um espelho encarei meus medos, refletidos naquela figura disforme de pedinte, um andarilho, uma fração esfarrapada de mim mesmo. E, ali naquele momento final, a gota que transbordou o copo, eu me reencontrei.

No ápice da solidão, quando eu fui abandonado até por aquele que eu jamais imaginei que teria coragem, eu me olhei no espelho e sob meu próprio escrutínio chorei. Ainda não havia chorado, não da forma que se deve, não aquele choro que lava a alma, ainda não, porém aquele era o momento certo. Chorei uma noite inteira até o sol se erguer e ver pela janela as primeiras luzes. Levantei-me, já não era mais as profundezas do labirinto, as minhas roupas estavam apenas sujas, e diante do espelho tentei me recompor. Lavei as lágrimas, cortei a barba, e desnudo banhei-me. A água lavou a pele e a alma. Assisti a água suja escorrer pelo ralo, demoradamente, o peso aos poucos diminuiu, e meus olhos vermelhos retomaram o viço, a pele ainda amarelada ansiava pelo calor do sol e novamente senti uma fome de vida enorme, dolorosa. Presenciei a água cristalina enfim escorrer do meu corpo. Sai do banho e a imagem refletida no espelho ainda não era totalmente eu, mas algo próximo e sorrir já não era mais doloroso. Catei os cacos, embalei tudo e parti.

Por algumas semanas vaguei sem rumo, mas já havia uma lanterna para encontrar a saída do labirinto. Apegado aquela luz fraca corri o máximo que pude, renovado pela esperança e enfim não estava mais na escuridão. Estou melhor, a pele já está retomando a cor saudável de antes, no entanto ainda escuto a dupla tenebrosa praguejar a minha ausência, seus gritos me alcançam mesmo a distância como uma voz dentro da minha cabeça.

Hoje encontrei uma rocha para me apegar, estou recobrando as forças ao poucos, entretanto já estou erguido e minha postura ereta como antes, há ainda vestígios e por ocasiões sinto as costas teimarem em curvar, mas eu luto contra todas as dores. Em alguns aspectos reconheço o eu de antes, mas em muitos outros sou outro ser. Arrisco dizer que esse novo ser é mais atraente, encontrei alguém que parece concordar, mas isso te conto outro dia. Queria apenas compartilhar com você tudo isso, talvez eu esteja me justificando, e acredito que lhe devo mesmo uma justificativa. Perdão meu caro amigo. Não posso prometer estar sempre por aqui, mas farei o meu melhor e sei que a luta apenas começou.

Um beijo terno do seu amigo.

Estou de volta.

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