Ainda durante a tempestade…

Dois meses distanciam este escrito do anterior. Sim, dois meses. Naquele momento encontrava-me no olho de um furacão, assim como os outros, esse possui nome feminino, mas dessa vez não era de mulher. Ela veio chegando sorrateira há um ano. Foi se instalando pé ante pé, suavemente, leve como um felino, acredito mesmo se pisasse em vidros não a ouviríamos entrando pela porta.

Espaçosa como só ela poderia ser. Instalou-se e sua presença podia ser sentida em todos os cômodos do apartamento. Metia-se no banco do passageiro sempre que eu estava guiando o carro pelas ruas de Fortaleza. E quando viajávamos, eu e meu marido, ela se alojava esparramada no banco de trás. Acompanhava desafinada as músicas que eu ouvia no fone de ouvido conectado no telefone celular. Ela sussurrava bobagens triste ao meu ouvido quando eu tentava ler um livro, eu perdia a concentração, e assim Raskólnikov ainda me aguarda. Fazia-me errar o ponto do omelete que sempre se partia quando eu tentava virá-lo na frigideira quente.

De tão inoportuna, fazia-me arder os brios. Assim, a paciência, companheira necessária nos nosso dias e única amiga que restara após os meu rompantes de ira, partira e sua falta se fez. Sofrido pela ausência, minha voz subiu o tom, meus gestos se tornarão rudes, e  como consequência recebi as lágrimas daqueles que amo e o sorriso ferino daquela que veio sem convite, gelado e torpe, era o único tipo de afeto recebido. Vilipendiado,  meu coração entristecido, meus dias antes ensolarados agora eram completamente gris. O inverno frio, úmido e bolorento alcançava meu ossos. Porém, dessa vez, era apenas eu e a visita indesejada, que, de tão cínica, já recebia correspondência em meu endereço usurpando o meu domicilio como fosse seu.

Seguindo o ditado, vencido na guerra, me juntei ao inimigo. Ela era ciumenta, queria exclusividade, torturava-me, dissimulada sempre que sentia o meu desejo de distanciar-me. Malandra, seduzia-me e eu tolo caia nas suas garras.

[continua]

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1 comentário Adicione o seu

  1. Wanderson Dias disse:

    Republicou isso em TERRA INCOGNITA.

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